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domingo, 24 de abril de 2011

"Sensível versus Inteligível"

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O Pensador, Rodin
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Na primeira parte da série sobre religião e filosofia, o homem cria deus e surgem as primeiras, por assim dizer, "filosofias religiosas". Nesta segunda parte, os filósofos pré-socráticos inauguram o pensamento metafísico.

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Sensível versus Inteligível

Após Pitágoras, e durante um período secular de rica e profunda atividade intuitiva, o embate entre teses opostas busca explicar a verdadeira natureza das coisas pela oposição de noções fundamentais: sensível versus inteligível, pluralidade versus unidade, movimento versus repouso... Heráclito, Zenão e Demócrito são expoentes deste período, caracterizado não apenas pela intensa oposição de ideias, mas por um sensível distanciamento do pensamento teísta.

Não obstante o afastamento do “pensar em deus”, no calor do debate ressurge a questão fundamental: o “vir a ser” sem o “vir do não-ser”. Manifesta-se novamente a questão da pré-existência de uma força criadora, que pressupõe, filosoficamente, a existência de um ser primordial, eterno e imutável – um deus.

Todavia, naquele momento de grande inquietação dos pensadores desprendidos de outros propósitos que não fosse o puro e o livre-pensamento, entram em cena os sofistas. Homens de grande saber, dotados de magnífica retórica, os sofistas ensaiam uma mudança nos rumos da nascente filosofia – agora propriamente dita – direcionando o pensamento filosófico para objetivos práticos, para resultados políticos e para propósitos meramente tempestivos. Usam a palavra com maestria, e pelo uso desta retórica soberba e pujante procuram convencer seus discípulos de que não há verdade fundamental, não há ciência absoluta, pois, se o homem é a medida de todas as coisas*, tudo o que há pode ser ou pode não ser, a depender exclusivamente do poder de convencimento de quem defende uma ou outra posição.

Pela voz dos sofistas, physis e nômos estão irremediavelmente cingidos: o primeiro princípio se alicerça nos seus próprios fundamentos; o segundo não possui outro fundamento senão o arbítrio da convenção humana.

E assim seguiria o curso das coisas, não fosse o surgimento do assim chamado “o bom sofista”, ou “o verdadeiro filósofo”. O desprendido e abnegado amante do saber que busca, pelo recurso da dialética, reassociar os fundamentos do mundo sensível, do conhecimento e dos valores absolutos ao sólido fundamento do nômos. Aquele para quem a função do mestre é ajudar o discípulo a lembrar – ou “re-conhecer” – as verdades adormecidas em sua alma; aquele que, consciente da própria ignorância, busca despertar no seu discípulo essa mesma consciência. Diz-se fadado a espicaçar seus concidadãos “como um moscardo”, despertando-os da ignorância inconsciente em que se comprazem. E assim o faz, com a sua filosofia revolucionária, que desloca o eixo da reflexão da natureza para o homem, que concentra o pensamento na apreensão e na definição das essências (do inteligível), que define o universo como próprio da ciência, que contesta, que incomoda e que prepara o caminho para o futuro de toda a filosofia. Sócrates é o nome deste “profeta”, e seu “evangelista” é Platão... Que irá ainda muito, muito mais além...

*A máxima de Protágoras de Abdera, "o homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são", expressa com propriedade o relativismo dos sofistas.

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(Próxima postagem: Os Discípulos do 'Bom Sofista')
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