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segunda-feira, 26 de março de 2012

A amargura deles e a minha indignação

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DiCaprio e Streep nos papéis de Hoover e Tatcher

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Pretendo assistir as cinebiografias mais comentadas do momento, mas no aconchego da alcova, tão logo estejam disponíveis em DVD. Por ora, ouço falar. E de ouvir falar, penso na absoluta impossibilidade de qualquer realizador apresentar, com desapaixonada correção, a vida particular de duas personagens tão controversas e de tamanha relevância histórica. Aqueles que assistiram dão conta de que os cristãos, belicistas e conservadores/neoliberais Hoover e Tatcher são retratados sob um enfoque pessoal no mínimo indulgente, tanto no auge do poder quanto na amargurada velhice. Segundo ambos os panegíricos, as duas figuras, a despeito de experimentarem, um a vitória de Nixon, outra a derrocada da União Soviética, são ainda, no ocaso de suas vidas, assombrados pelo fantasma da subversão comunista que combateram com tanto afinco.

Imaginando essas figuras poderosas, cruciais em seu tempo para a feitura da história dos vencedores, acometidas pela melancolia nas vésperas de se fazer as malas, reflito sobre as benções da confortável e aquietada insignificância de uma vida orientada pelo ceticismo e pelo humanismo. A opção pelo desapego, pelo secularismo e pelo socialismo (ou capitalismo social, ou liberalismo social, ou seja lá como hoje se prefira nomear a opção pela liberdade e pela igualdade) garantirá uma velhice sem amarguras, posto que mínima e fisicamente capaz. O desfecho será nada além de um ponto final a encerrar uma existência sem expectativas de elevada transcendência, e conduzida pela ideia pacífica da extinção. E norteada, ao menos em tese, pela justa noção de humanidade sempre a mover uma incansável indignação (*). Não haverá, creio eu, amargura que capture esses últimos dias.

(*) Indiganação que em nada se parece com melancolia ou com amargura; e que se firma, além de outros elementos, em dados como estes: 67,6 % da população adulta mundial sobrevive com 3,3% da riqueza global, metade da mesma população detém apenas 1% dessa riqueza; do outro lado do abismo, os 10% mais ricos dominam 84% da riqueza global, o minúsculo vértice de 1% abocanha 44% de todos os recursos do planeta dos quais 38,5% pertencem ao 0,5% mais rico (dados do Global Wealth Report 2011 do Credit Suisse; fonte da imagem: idem, página 14 - clique para ampliar).


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