Páginas

quarta-feira, 15 de junho de 2011

"A Crítica, além da Razão"

.
O Universo Heliocêntrico
.
..
...

Na última postagem, breve análise sobre a transição do racionalismo para o empirismo e a consequente conversão do pensamento filosófico do teísmo mecanicista de Descartes para o ateísmo materialista dos empiristas. Neste post, a crítica kantiana traz um novo alento para a filosofia religiosa.

...

A Crítica, além da Razão

Antes de se passar propriamente ao “pensar em deus” sob o ponto de vista crítico de Kant, seria interessante fazer uma breve análise da filosofia religiosa de Hume. Em primeiro lugar, o empirista escocês questiona a noção de causalidade. Segundo ele, a mera percepção de dois eventos não significa, necessariamente, que se possa perceber alguma “conexão” entre eles, por mais óbvia que tal conexão possa parecer aos sentidos. Em seguida, Hume procura refutar o argumento teleológico* para a existência de deus, reputando ao arrazoado uma casuística antropomórfica: o fato de o ser humano atribuir causas finais ao Universo – o “para quê” da existência – não significa que o Universo possua, de fato, uma causa final. A conclusão de Hume é categórica: a idéia de uma relação de causalidade entre as coisas “é uma mentira e uma ilusão”; que direito, portanto, terá o homem de pretender que “deus é a causa do mundo”?

De regresso a Kant, que funda e expressa o criticismo na sua melhor acepção naquele que foi um século de intensa atitude crítica – o século do Esclarecimento, também chamado Iluminismo –, percebe-se que ele, muito embora experimente forte influência de Hume, depara-se com um problema fundamental: seu predecessor destruíra o que até então se chamava Metafísica e, consequentemente, transformara toda a teologia num imenso castelo de cartas (lembremos que Kant era cristão devoto). Então, será possível que, após Hume, todo e qualquer conteúdo suprassensível – deus, liberdade, verdade... – se descubra absolutamente desprovido de sentido? Em vez de se escandalizar, Kant sustenta que não; e ainda sugere que, embora haja que se rever de fato o dogmatismo metafísico, há também que se preparar o pensamento futuro para uma metafísica que não se confunda com a Ciência.

Assim, Kant não se distancia apenas do racionalismo vigente, que tomava a metafísica como forma preponderante de conhecimento, mas distancia-se do próprio empirismo, que colocava em cheque a mesma metafísica. Quanto aos racionalistas, o criticismo identifica a fonte do seu erro: a própria razão, ou a razão pura. Quanto aos empiristas, se a experiência não deixa lugar para conceitos especulativos (os quais Kant chama de ideias), a própria especulação filosófica transgridiria o domínio da experiência. Vale ressaltar que o conceito kantiano de ideias, embora tomado de empréstimo ao ideal platônico, as reputa limitadas tão-somente à sua representação lógica na medida em que não assume a sua suposta existência enquanto coisas-em-si, mas apenas enquanto fenômenos tais como aparecem ao sujeito.

Embora não se afaste da condição a priori do conhecimento (que denomina de transcendental, diferente do conceito de transcendente dos racionalistas) Kant atribui ao pensamento crítico a faculdade de distinguí-la da condição a fortiori, a saber: ele busca um juízo sintético a priori que confirme a metafísica fazendo a distinção entre os chamados phaenomena e noumena, isto é, as coisas tais como aparecem ao sujeito (fenômenos) e tais como são nelas mesmas (coisas-em-si), estando o noumena além dos limites acessíveis à razão humana. O filósofo separa, portanto, o domínio do ser do domínio do pensar. Assim, a revolução kantiana não se limita à filosofia, mas alcança também a religião quando tomada nos limites da simples razão: o "pensar em deus" filosófica e racionalmente sob a inferência do criticismo.

Se, antes do criticismo, o dogmatismo metafísico já aceitava como pressuposto a ideia da existência de "realidades" acessível à razão – tais como deus, alma, mundo, matéria, forma ou substância – a “revolução copernicana” de Kant traz uma nova perspectiva para o tratamento desta questão. Por que “copernicana”? Porque se antes de Copérnico considerava-se um mundo (planeta Terra) em repouso em torno do qual girava o Sol, após Copérnico passou-se a considerar o Sol imóvel e a Terra móvel, a realizar o giro em torno da estrela. Assim como o Sol, a Razão também girava em torno do mundo, buscando iluminá-lo. Após Kant, a Razão se imobiliza e o mundo dos fenômenos é por ela iluminado conforme o raio de sua ação.

Os caminhos até Kant são sinuosos desde os antigos clássicos, patrísticos e escolásticos pretensiosos do equilíbrio fé-razão; atravessam tortuosos os domínios da razão pela razão e sob a fé de Descartes, Spinoza e Leibniz, e da razão sem fé de Voltaire e dos enciclopedistas. Passam igualmente sinuosos pelo fervoroso entusiasmo de Bacon e Hume pelo poder da ciência e da lógica hostis à religião,  bem como pelo combate ao materialismo e ao ateísmo iluministas, segundo o qual “se a razão é contra á fé, pior para a razão!”. Caminhos tortuosos e sinuosos, mas que apontam para uma confluência eficaz, ao menos sob o ponto de vista sistemático. Após A Crítica da Razão Pura, uma profunda remodelagem da teoria do conhecimento será produzida; após Kant, nenhum filósofo ocidental desprezará a conquista epistemológica e o instrumental conceitual do criticismo. Mas, após Kant, e por sua filosofia moral (vide o imperativo categórico) e religiosa (fé eclesiástica convertida em fé racional, religião nos limites da razão), o teísmo volta a se imiscuir no pensamento filosófico.

De imediato, novos pensadores de porte brotam, sobretudo do solo pátrio de Kant, dentre os quais aqueles que fundarão o chamado idealismo alemão pós-kantiano. Retoma-se a tentativa de conciliar razão e fé pelos sistemas filosóficos de Fichte, Schelling e, especialmente, de Hegel.


* O argumento teleológico, que remonta ao aristotelismo, baseia-se na ideia de uma finalidade para a multiplicidade de seres existentes e para o próprio universo, ou na causa final para a existência do universo.

...

No próximo ensaio, o ideal de conciliação entre fé e religião pela via da dialética hegeliana.

...
..
.

9 comentários:

Fal Azevedo disse...

tá um petáculo esse texto

Marcello disse...

Obrigado, Fal. Ele faz parte de uma (longa) série, o tema é árduo, tô pelejando.

Agora deixa eu tietar um pouco, rs. Baita orgulho receber sua visita. Adoramos seu livro, e fazemos questão (eu e Mariê) de recomendá-lo: http://va.mu/vOk

Pentacúspide disse...

estes textos são de alguma tese tua, ou de algum livro que pretendes vir a publicar?

Li textos esporádicos de Kant, "o que é a iluminação" foi o único que li na íntegra, mas apesar disso, não tinha percebido o deísmo dele (ou devia ser teísmo, ainda não absorvi os conceitos), sempre julgava que ele seria um ateu, tal como Voltaire e boa parte dos iluministas que li, mas não me admira nada que ele use a filosofia, com toda a sua estrutura lógica para explicar um deus, totalmente ilógico, pelo menos o deus bíblico.

Mas não entendi muito bem, será que Kant pôs em chegue a negação da causalidade de Hume?

Roy disse...

Levei dois dias para ler bem, e realmente gostei. Algo que faz falta na blogoesfera popular e a analise filosofica (secular ainda mais).

Abrax

Roy

Marcello disse...

Pentacúspide, você pode se inteirar das intenções (singelas) deste projeto na primeira postagem da série, aqui: http://va.mu/zTP

Kant definitivamente era teísta. Tando que, embora bebesse na fonte de Hume, precisava manter efetivo no seu sistema filosófico o argumento teleológico: a ideia de uma causa final para a existência do universo, ou seja, deus.

Marcello disse...

Obrigado, Roy.
E vem mais por aí, tô aqui pelejando!

Abraço.

Pentacúspide disse...

Marcello, não entendi muito bem. Pelo que percebi Hume negava a "causalidade", ou seja não achava que o universo necessariamente tivesse de ter uma causa, nesse sentido, como é Kant se baseia em Hume para atribuir a "causa" do universo a Deus?

Marcello disse...

Pentacúspide, este é precisamente um dos aspectos da revolução kantiana.

Hume é agnóstico (ou ateu) e empirista, e pretende apartar seu sistema filosófico de componentes sobre-humanos, ou metafísicos; para isso, entre outras coisas, refuta a causalidade e os argumentos causais p/ existência de deus.

Kant é homem religioso, mas é também um sistemata, um filósofo que, embora a critique, se pauta pela razão. O que ele sugere, grosso modo, é uma terceira via, ou uma alternativa à escolha filosófica da época: ou você era um "racionalista-teísta" ou um "empirista-ateu". Essa alternativa se pauta pela razão sem confiar inteiramente nela, e reconhece que não é possível conhecer/compreender integralmente os fenômenos (muito embora defenda a capacidade da filosofia de "soletrar os fenômenos). Portanto, se o filósofo crítico questiona a razão pura, não questiona o que não é inteligível pela via da razão pura (deus, alma, felicidade etc).

Espero ter ajudado.

Abç.

Pentacúspide disse...

Não vou dizer que percebi muito bem, porque na minha bagagem sempre trouxe Kant como um racionalista, e nunca cheguei a pensar que esses pudessem ser também teístas, ok, Santo Agostinho e S. Tomás de Aquino à parte. Mas a grosso modo entendi. Não li muito o Kant, só um título, e textos esporádicos que se encontram por aí, mas de qualquer forma o seu método expositivo é muito diferente de... Pascal, por exemplo, que era abertamente teísta, e que no Pensamentos tentava explicar a fé e a sua necessidade. Mas agora tenho que ler Kant (se por acaso o for fazer) com outra luz.