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domingo, 12 de junho de 2011

"Deus e Razão: um primeiro divórcio"

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Frontispício da Encyclopédie de Diderot e D'Alembert
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O blog retoma a série de postagens sobre o conflito “fé-razão” no pensamento filosófico ocidental.

Na última postagem, após o obscuro milênio da Idade das Trevas, quando os pensadores cristãos tentaram, sem sucesso, conciliar razão e fé, os racionalistas ocupam o cenário filosófico europeu. Como veremos neste post, os empiristas os sucedem, e o longo e traumático divórcio entre filosofia e teísmo se insinua.

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Deus e Razão: um primeiro divórcio

Historicamente, o racionalismo cartesiano se fará acompanhar e se deixará suceder pelo racionalismo de Spinoza, um deísta, e de Leibniz, um teísta.

Baruch de Spinoza, de origem judaica, é excomungado em razão de suas teses pouco ortodoxas segundo as quais deus é o mecanismo imanente da natureza e do universo. Isto é, deus e natureza são uma única coisa, e a bíblia não é mais que uma obra metafórico-alegórica – o “livro sagrado” não pediria, portanto, leitura racional e não exibiria a verdade sobre esse deus natural.

Leibniz é o autor do famigerado argumento da contingência: tudo o que existe e é contingente carece de uma explicação; a explicação última não pode ser outro ser existente contingente; logo, há uma existência necessária que explica toda a existência contingente. Em outras palavras, na pergunta algo retórica do próprio filósofo, “Por que há algo, e não o nada?” (para uma resposta mais recente e racional a esta pergunta, sugiro Russel).

Além das correntes racionalistas mencionadas, o empirismo inglês dividirá o cenário filosófico seiscentista com o racionalismo francês, sobre o qual exercerá forte oposição, e o sucederá. Entre os expoentes desta escola está, na sua origem, Francis Bacon, e no seu apogeu, Hobbes, Locke, Berkeley e Hume entre outros.

Se o método cartesiano admite a dedução como fundamento – isto é, das experiências a priori constrói-se posteriormente o conhecimento – o empirismo vale-se do método indutivo, ou seja, da experiência sensível constrói-se o postulado (a posteriori portanto) para daí remontar aos princípios gerais que regem a certeza, ou a verdade, dos fenômenos. Por esta via, não obstante alguns dos empiristas ainda pugnarem pela essência das coisas sob o primado do dito “ser perfeito”, o cerne do pensamento empírico acaba por converter o teísmo mecanicista de Descartes em ateísmo materialista, porquanto defenda que a experiência sensível prescinda de qualquer ser ou entidade extramaterial.

Entre os empiristas teístas estão Thomas Hobbes, George Berkeley e Isaac Newton. Entre os ateus, David Hume merece atenção especial, senão pelo seu profundo ceticismo, também pela grande influência que exercerá sobre Immanuel Kant.

O empirismo inglês irá influenciar fortemente a filosofia dos séculos posteriores, desde o positivismo de Augusto Comte, na primeira metade do século XIX, ao pragmatismo americano no final do mesmo século, passando pelo utilitarismo de John Stuart Mill, que retoma o empirismo clássico em diversos trabalhos nos campos da lógica e da filosofia política. Todavia, a influência imediata e mais marcante se fará sentir pela obra de Hume, especialmente sobre o nascedouro pensamento crítico – ou criticismo – de Immanuel Kant e seus epígonos. “Hume despertou-me do meu sono dogmático”, escreverá Kant no prefácio dos Prolegômenos (Prolegômenos a toda metafísica futura que queria apresentar-se como ciência, é o sugestivo título da obra que sucede a Crítica da Razão Pura), quando se inaugura aquela que é considerada a mais influente escola filosófica da era moderna.

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Próxima postagem: “Crítico, além de racional”. O criticismo, marco da maturidade filosófica ocidental, revoluciona os sistemas de pensamento. A razão pura em cheque, a fé novamente em foco.
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10 comentários:

Pentacúspide disse...

Não entendi muito bem a diferença entre o teísmo e o deísmo... é claro que podia ir ao google pesquisar, mas como sou preguiçoso e conto contigo para me explicar, acho que me vou dar ao luxo da inércia.

A necessidade de deus, para mim, nasce da nossa educação e compreensão limitada do universo. O homem considera-se muito inferior para viver sem guia, precisa sempre de um deus, mesmo que esse deus tenha de ser o nada, mas precisa desse nada muito mais importante do que ele para usar como a bússola. E no cair da cortina, quando analisa, acaba por notar que não fez mais nada do que substituir. Eu, pelo menos, prefiro substituir o deus que me foi dado na infância, por um nada que não me exija culto; no entanto a ter um nada que não exista culto, nem respeito e ética, prefiro um deus que se cultue mas que me dirija a ética (no sentido aristotélico do termo).

Gosto destes teus posts.

Marcello disse...

Pentacúspide, de uma maneira simples, deísmo é a crença em deus pela via da razão. O deus do deísta não é antropomórfico, ele se confunde com a natureza e com o próprio universo.

O teísmo já seria a forma clássica de crer em deus. É mais emocional e depende totalmente de uma fé que não precisa ser nem um pouco razoável (no extremo do teísmo, está a crença naquele deus barbudo que fica sentado no trono do céu obervando, julgando e punindo todo mundo).

E, sim, concordo com você. A necessidade da crença é fruto do desamparo e da impotência - decorrentes, basicamente, da nossa consciência da finitude.

Obrigado, e um abraço.

Marcello disse...

Nota: deísmo como "crença" pela via da "razão" pode parecer um tanto incompatível, mas o propósito, ao menos sob o ponto de vista dos deístas, é esse mesmo.

Pentacúspide disse...

Quer dizer os deístas usam a filosofia para explicar Deus? Já vi vídeos de um crente famoso, um deísta, suponho, Willian Lane Craig, que usa concepções filosóficas para explicar deus. Porém, o engraçado, apesar das muitas falácias que ele usa para sustentar o seu ponto de vista, a sua argumentação é be construída, o que nos demonstra que apesar de sermos, nós que pretendemos ser "iluminados", supostamente antidogmáticos, quando umas balelas têm um apoio científico e lógico-filosófico, mesmo que falso, "acreditamos" nele. Ou seja, ainda estamos a procurar de verdades universais, ou pelo menos de padrões universais e incontestáveis da verdade, tal como a dogma de ética de Aristóteles.

Vais disse...

Ei, Marcello,
olha, bom demais esta sua peleja, tá dando gosto de ler.
Li o mundo de Sofia e a parte do Hume achei bem interessante e destaco esta:

"Na religião, Hume achava que era um absurdo racionalista achar que seria possível provar a fé religiosa com a razão humana. Ele era agnóstico, ou seja, segundo ele, não tinha experimentado nada que provasse a existência de Deus mas também não afirmava que Deus não existia porque nunca pode provar isso. Ele simplesmente fazia questão de se mostrar imparcial a isso até que experimentasse algo a respeito. O mesmo ele afirmava em relação a milagres, Jesus Cristo, religiões e afins."

coloquei numa postagem mais antiga que fiz que religião serviu pra três coisas na minha vida, me deprimir, oprimir e reprimir, isso porque comecei a ver/sentir que não há liberdade na religião.
hoje mesmo a Júnia me perguntou se eu era católica porque a professora dela perguntou de qual religião eu era e ela respondeu que achava que era católica, daí falei pra ela que fui criada na católica mas que não era de mais nenhuma.
Então acredita-se que deus está em tudo, em nós, na natureza, e que são muitos, mas ao mesmo tempo ele é onipotente e está num lugar bem mais sagrado e é o dono do destino e que não importa o que desejamos pois se ele não quiser é melhor largar pra lá.
Vira e mexe solto um viciante, ai meu deus!, mas vou logo completando, ai Dadá!, ai minha deusa da terra do céu da água e do fogo.
A Elena contando que quando a professora perguntou quem era deus, ela respondeu que deus está em nosso coração.
E se nosso estado é laico deveria seguir por outras linhas quando a questão é religião e não impor via subjetividades/entrelinhas o catolicismo, mais frequente, e discriminar as outras, e independente de religiões educar para o respeito, a solidariedade, a elevação das consciências nas diversas dimensões humanas com o que nos cerca.

parabéns pelo trabalho

abração

Marcello disse...

Oi, Vais. Veja você como esse asunto é complexo, e como está ligado a tantos aspectos da vida: escola, política, família, sociedade... As crenças são tão antigas quanto a inteligência, deuses e religiões parecem ser indissociáveis da existência do ser pensante (que sabe da própria finitude e não dá conta de lidar com isso). Tanto que os pensadores, ao longo dos séculos, se debruçam sobre o tema tentando conciliar "crença" (baseada na emoção) com "ciência" (baseada na razão). É uma luta inglória. Aqui do meu cantinho, penso que pode até não ser mais fácil, mas é mais LIVRE pensar na vida como algo que se basta em si, que começa, existe e acaba. E que pode ser muito divertida, hehe. Simples assim.
Um abraço.

Daniel Martins disse...

Muito interessante o texto, e deveras instigador xD Me abriu a curiosidade pra ler mais sobre Russel, provavelmente lerei "No que acredito", dele.

Vais, quanto ao "meu deus"... Fui criado em uma família espírita, mas a partir dos meus 14 anos meu pai foi mudando pro catolicismo, religião nunca me foi imposta diretamente(embora meus pais tenham tentado me levar pro espiritismo e pro catolicismo, mas nunca foi nada obrigatório) e ainda sim solto os "meu deus". Não pensando no ser lá de cima, mas apenas como também chingo uns palavrões de vez em quando, relacionando espanto. Quando eu falo caral**, não estou pensando na forma fálica do que digo para relacionar com espanto ou nada mais, é apenas um mecanismo psicolinguistico remanescente de um aprendizado social.

O ser humano sempre preferiu o mais fácil, não é a toa que o controle remoto foi inventado xDD

JENYFER VALENTIM disse...

O QUE EU ENTENDI DESSE TEXTO É QUE DEUS NÃO É APENAS UMA PALAVRA, MAS SIM ELE É O QUE FEZ O CÉU E A TERRA, QUE UTILIZAMOS, MUITO EM CATOLICISMO. JÁ A RAZÃO É UMA TESE EM POUCOS SEGUNDOS AS QUAIS DEUS É O MECANISMO EMANENTE Á NATUREZA.

Marcello disse...

Daniel, sugiro pra você uma coletanea de ensaios de Russell (não me recordo o título), entre os quais está "Porque não sou cristão" e uma compilação do famoso debate entre o filósofo e o padre Copleston, transmitido pela BBC nos anos 40.
Obrigado pelo comentário, volte sempre.

Marcello disse...

Jenyfer, os textos desta série não se pretendem conclusivos. O que procuro fazer é uma análise da relação entre o fenômeno da religião e o pensamento filosófico ao longo do tempo. Nesta postagem, em particular, sobre a transição do reacionalismo para o empirismo, figuram pensadores deístas, teístas e ateus; cada um deles procura, a seu modo, "encaixar" (ou não) deus naquilo que seu ponto de vista filosófico sustenta.
Obrigado pela visita, volte sempre.