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terça-feira, 26 de abril de 2011

"Patrística, Escolástica e Idade das Trevas"

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Na série sobre o conflito fé/razão sob o enfoque da filosofia, no último post os grandes filósofos do Período Socrástico, sobretudo Platão e Aristóteles, procuram pensar o divino racional e especulativamente.
Nesta postagem: com a consolidação do cristinismo como religião oficial de Roma, surgem os primeiros pensadores cristão - assim chamados "Pais da Igreja" - e a sua Patrística, precursora da filosofia Escolástica e do período apropriadamente chamado de Idade das Trevas.

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Patrística, Escolástica e Idade das Trevas

A tentativa de refutar uma lógica sistemática sobre deus, tal como a concebeu Aristóteles, deve admitir, segundo as palavras do próprio sábio, que “o mundo brota (ou brotaria) da noite, da confusão universal do não-ser”, como quer a metafísica. Não por acaso, a tentativa de uma suposta conciliação entre fé e razão terá suas bases lançadas ainda no século IV d.C. por Agostinho de Hipona, um seguidor de Platão, mas somente terá consistência muito tempo depois, mais precisamente no século XIII da cristandade. Será Tomás de Aquino, um seguidor de Aristóteles, o responsável por tomar de empréstimo da peripatética a estrutura racional a permitir o confronto e a (suposta) conciliação do pensamento filosófico com a fé cristã, até então puramente dogmática.

Mas, se será o pensamento tomista o responsável por legar ao cristianismo certa estrutura racional, que aliás permitirá que a religião ainda se imiscua no ambiente crescentemente leigo a ser instalado nos fins da Idade Média, é muito antes disto, no início do mesmo período histórico, que Agostinho estabelece os fundamentos de tal legado.

Aurélio de Agostinho, natural de Tagaste, na atual Argélia, é ele próprio um relativista. Professor de Retórica em Milão, é adepto do maniqueísmo* e dono de uma profunda cultura humanista. Talvez desses mesmos traços marcantes, anteriores à sua conversão, é que advenha o empenho em superar o ceticismo da Nova Academia**, que, segundo ele, é incompatível com a verdadeira doutrina platônica, sua grande influência a partir da conversão.

Antes dele, porém, dois outros membros da mesma Patrística – a nascedoura filosofia cristã dos ‘Pais da Igreja’ – digladiam-se em atitudes opostas perante o legado clássico. Justino, de cultura grega, defende que o logos divino já se manifestava, ainda que de modo imperfeito, na intuição investigativa dos filósofos gregos, mas que somente viria a se apresentar de maneira plena após a revelação do verdadeiro logos, o Cristo. Tertuliano, seu opositor de cultura latina, relega ao engano e ao erro qualquer produto da razão humana, de modo que o legado grego não teria vislumbrado mais do que meros vestígios da 'Razão Absoluta'. Segundo ele, única e exclusivamente pela fé se revela ao homem o verdadeiro logos divino. Escreveria Tertuliano:
Com efeito, que existe de comum entre Atenas e Jerusalém? Que acordo pode haver entre a Academia e a Igreja? (...) Longe de vós qualquer tentativa de produzir um cristianismo mitigado com estoicismo, platonismo ou dialética. Depois que possuímos a Cristo (...) basta-nos a fé, pois não pretendemos ir atrás de outras crenças.
(Sobre a prescrição dos Hereges)

Agostinho, como Justino, não despreza o legado clássico. Ao contrário, vê no platonismo a mais pura e luminosa filosofia da antiguidade. Assim procura indicar, ombreando vocação filosófica e fé na revelação, o caminho para a solução do problema das relações entre ambas, a fé e a razão. O autor dos Solilóquios, das Confissões e de A Cidade de Deus, deseja ardentemente penetrar e compreender com a razão o conteúdo da própria fé. Embora com as evidentes ressalvas, é meritória a sua antecipação, em mais de um milênio, de fundamentos do racionalismo francês e do cogito cartesiano:
(...) pois ninguém duvida que uma dupla força nos impele à busca do conhecimento: a autoridade e a razão. Para mim, é certo que nunca devo afastar-me da autoridade de Cristo, pois não encontro outra mais firme. Quanto às questões que devem ser investigadas criticamente pela razão (...) espero encontrar entre os platônicos, o que não esteja em contradição com a nossa fé.
(Contra Acadêmicos)
De forma alguma temo os argumentos dos acadêmicos quando perguntam: mas, e se te enganas? – Se me engano, existo, pois quem não existe não pode sequer se enganar.
(A Cidade de Deus)

Todavia, longe de solucionar o sinuoso conflito entre fé e razão, o Bispo de Hipona ainda o legará aos seus sucessores escolásticos, ainda que relativamente apascentado e assentado sobre alguma base teórica. Destes, talvez será Tomás de Aquino o que mais se deixará influenciar pela filosofia grega, embora tenha em Aristóteles, não em Platão, sua maior inspiração.

* Dualismo religioso sincretista ensinado pelo sábio persa Mani, que afirma a existência de um conflito cósmico entre Bem e Mal; a matéria, segundo a doutrina, pertence ao reino do Mal, impondo-se portanto ao homem o dever de pelejar pelo Bem por meio de práticas ascéticas, como a abstenção à procriação e aos alimentos de origem animal.

** A antiga Academia de Platão expunha e comentava uma doutrina como expressão da Verdade; a nova Academia coloca em questão essa Verdade e a critica, no que se conduz ao ceticismo.

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(Próxima postagem: "O 'Racionalismo' Cristão Medieval")
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2 comentários:

zcarlos disse...

Excelente.
Vou republicar junto com outros já publicados e o próximo.
Abs!

Marcello disse...

Obrigado, José Carlos, e sinta-se à vontade para republicar. Fico envaidecido.

Reforço, todavia, que minha intensão ao escrever esses "ensaios" (ou "tentativas") é despretensiosa. Trata-se mais de pesquisa informal para meu próprio deleite que de um estudo crítico sistemático e concludente. Aliás, tem sido de fato muito divertido, informativo e formativo escrevê-los.

Um abraço.