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terça-feira, 6 de abril de 2010

O pregador

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Acordei, abri os olhos, fechei de novo... “putaquepariu”. Um suspiro me sentou da cama, a cabeça me doeu. Fiz careta e levantei. Sai do quarto coçando a bunda, o desânimo saiu comigo. Mijei grunhindo feito bicho doente. Investiguei a cara no espelho, examinei os olhos mal-dormidos, a barba naquele ponto entre o relaxado e o tosco... “Foda-se”, puta preguiça de fazer barba.

Cafezinho preto pra foder de vez o estômago, elevador. No quarto andar entra essa dona, ela me espicha com uns olhos de velha assustada e canta um “bom-dia” mais falso que CD da banda calipso. O meu sai espremido, feito merda...

Cigarro, primeiro do dia, de uns trinta e tantos. Arrasto o corpo pela rua meio cheia, meio vazia, o céu meio cinza, meio azul desmaiado.

Ponto de ônibus, segundo cigarro, primeira dor de estômago. Chuva fina, gente espremida, gente pobre e com sono, fodida que nem eu.

Chega o baú, filial do inferno, mais cheio que barriga de afogado. Neguinho me esfrega o sovaco no ombro; outro, com priapismo, rela o pau na minha bunda; meu próprio pau – mais mole que jornal no sereno – esbarra (sem querer, eu juro) no ombro da mocinha magrinha feinha sentadinha no corredor que me olha com aquela carinha nervosinha, mais ofendidinha que mãe de juiz.

O ônibus sacode mais que bolacha em boca de velho. Entra o Pregador. Vai se espremendo no meio do povo e para atrás de mim, o bosta. Olho por cima do ombro e dou uma medida no cara. A camisa já foi branca um dia, a gravata, mais curta que estribo de anão, o terninho fodido de terceira mão, seis quilos de bíblia debaixo do braço, sorriso mais nojento que mocotó de ontem. Começa a cantilena, o fedaputa acha de ficar a dois palmos do meu ouvido. Perdigoto, discursório, monte de bobagem repetida feito papagaio, “jesus te ama e quer te salvar” – salvar do quê, infeliz?! – “arrependei-vos e sereis salvos” – arrepender do quê, carapálida?! – “deus tem um plano na sua vida...”, viro e dou um murrão na cara dele...

Violento eu nunca fui. É que me deu uma coisa ruim por dentro... Fiquei assim meio cego na hora... Aí dei o murro, e ficou aquele silêncio de velório. O cara, assustado, com a mão no lugar do soco. E eu, paralisado, com aquela cara de padre em puteiro. Até que... uma palma... duas palmas... E o povo todo bateu palmas.

Saí do ônibus mais faceiro que mosca em tampa de xarope.
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Um comentário:

Mariê disse...

Impossível ler sem um sorriso na cara.
Delícia de texto, Preto.