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quarta-feira, 28 de abril de 2010

O Estranho Caso dos Frangos Suicidas

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(Inspirado em BAGNO, Marcos. A Língua de Eulalia, Contexto, 2008)


“Abate-se frangos”, diz a plaquetinha de madeira pendurada junto ao portão; “Vende-se hortaliças frescas”, esta lá, mais à frente, na entrada de outra casinha humilde. O homem – senhor distinto, letrado, adepto do bom e velho formalismo gramatical – regressa à pequena cidade natal depois de longa ausência; à visão daqueles ‘erros crassos de português’, balança a cabeça, desdenha e segue pela ruela bucólica e poeirenta.

Entra na vendinha de secos e molhados para um dedinho de prosa. Sente-se feliz com o trescalo do queijo curado, dos grãos em caixotes, do paio defumado pingente do teto. Saboreia aqueles aromas atávicos a despertar memórias quando percebe, espalhado pelo estabelecimento, uma multidão de novas plaquetas de anúncios.

Junto ao balcão, um aviso: “Aceita-se encomendas de docinhos”; noutro canto, um papelão recortado ao modo de placa: “Conserta-se panelas”; mais adiante, nos fundos: “Prega-se botões”... Como que ofendido pelas imprecações gramaticais, o homem ensaia uma crítica, mas percebe o ar ameaçador dos frequeses e dos vendedores... E o povo todo da venda começa a caminhar lentamente na sua direção... Ele recua, assustado, enquanto descobre outras placas.

Ali, meio escondida: “Destrói-se velhas gramáticas”; acolá, em letras vermelhas garrafais: “Extirpa-se formalismos gramaticais”; e “Elimina-se purismos linguísticos”; e “Aniquila-se faladores pernósticos”, e outra, e mais outra, e as gentes fechando o cerco, lenta, decididamente... E é quando ele acorda suando frio do seu pesadelo linguístico!

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O velho dilema sobre a correção do ‘vendem-se casas’ em vez de ‘vede-se casas’ é questão ainda não resolvida pelos gramáticos. Mas o povo (leia-se, o falante) já encontrou a solução.

Na língua portuguesa, a ordem sintática natural é sujeito-verbo-objeto – SVO. Ocorre que, de acordo com a ordenação gramatical, que arbitrária e artificialmente atribui à partícula ‘se’ dos exemplos mencionados o papel de agente da passiva, esta ordem natural é subvertida em determinadas orações, como no exemplo:

Aqui se falam muitas línguas.
                |                 |
                    verbo             sujeito
De início, tudo certo, uma vez que o verbo está em perfeita concordância com o (suposto) sujeito... Não é?... (e antes de prosseguir, note-se bem que na tal voz passiva a ordem VS pretende-se mais elegante do que a escorreita e despretensiosa forma ‘Muitas línguas são faladas aqui’...).


Não, não é. Acontece que é mais comum de se ouvir e falar – precisamente porque soa mais natural que a forma “culta”, com seu suposto e pretensioso sujeito invertido – a seguinte forma:


Aqui se fala muitas línguas.
        |        |              |
     sujeito    verbo        objeto
E esta é a razão pela qual o falador típico do português insiste – natural e espontaneamente – na forma verbal singular em tais construções frasais: é mais natural, é mais espontânea, é a mais comum.


“Mas é um erro!”, retrucaria, mais uma vez, o raro leitor. Aí, depende do referencial. A se considerar o pressuposto gramatical tradicional, sim, seria um erro. E qual seria esse pressuposto? De que a partícula ‘se’ jamais poderá exercer a função de um sujeito... Mas, isso, é no latim!


Herdamos esta ‘regra’ – e continuamos a cultuá-la nas gramáticas tradicionais – de uma língua que, embora seja mãe do português, e não obstante a importância de se conhecer a origem do próprio idioma, já não é falada há séculos. O português existe há mais de mil anos, e seria no mínimo obscuro e autoritário impedir o surgimento de fenômenos próprios apenas porque não existiam no latim.


Outro argumento a favor da forma supostamente correta, além do sintático, é o semântico. Insistem os gramáticos tradicionais na seguinte “equivalência”:


Abatem-se frangos = Frangos são abatidos
abatem-se, na voz passiva = são abatidos, na voz ativa...


...daí a (suoposta e arrogada) necessidade da concordância verbo-nominal.


Ora, trata-se de mera convenção, arbitrada e idealizada. Sob o ponto de vista semântico, e para perceber o disparate, basta anular a inversão do sujeito e colocá-lo na ordem correta. Vejamos o resultado:


Abatem-se frangos = Frangos se abatem... (Suicidas!!!)


E mais:


Procuram-se criminosos = Criminosos se procuram
Avistam-se as plantações = As plantações se avistam
Exterminam-se pragas = Pragas se exterminam


São resultados no mínimo cômicos – criminosos sofrem de crise existencial, plantações contemplativas se observam, pragas boazinhas nos fazem o favor de se auto-exterminar – ou até trágicos, se fizermos a inversão, por exemplo, em “exterminaram-se milhões de judeus durante a segunda guerra mundial”...


Desse modo, seria artificial considerar “Abate-se frangos” uma forma passiva, pois o que se enfatiza nesta construção é o ato de abater, donde não há dúvida que alguém faz isso, mesmo que esse alguém não seja nomeado – este sujeito é, simples e eficazmente, expresso pela partícula se”.


E se até aqui as explicações sintática e semântica não convenceram, há ainda um último trunfo, qual seja: um argumento pragmático. Definitivamente, frases do tipo “Abate-se frangos” não estão na voz passiva, mas na voz ativa, uma vez que indicam uma clara intenção do falante de enfatizar a ação praticada. “Frangos são abatidos”, esta sim, a autêntica forma passiva (do latim passio, passionis, que significa “sofrimento” – daí "paixão", que é o sofrer de amor...). Pragmaticamente, portanto, “Abate-se frangos” denota uma circunstância, um intuito e um efeito – mais ativo, impossível.


De resto, enquanto os pobres frangos continuam a cometer suicídio pelas granjas do país afora, o quê privilegiar: o modo mais natural, mais espontâneo e mais confortável de se falar, ou uma herança embolorada e anacrônica que se presta tão-somente à estratificação social baseada na linguagem?...
Aguarda-se respostas..., e, enquanto isso, João Cabral de Melo Neto:


Catar feijão se limita a escrever:
Joga-se os grãos na água do alguidar
E as palavras na folha de papel;
E depois, joga-se fora o que boiar.


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(Na próxima postagem da séria, uma homenagem ao Gilmar Mendes...)
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5 comentários:

Halem Souza disse...

Marcello, vinha lendo sua postagem, concordando inteiramente com sua linha de argumentação, e pensando, "mas falta o argumento principal". E, felizmente, ele apareceu: a suposta "equivalência semântica" entre as duas formas da "voz passiva".

Uma anedota: certa vez, um professor de quem fui aluno viu essa pérola de hiper correção linguística: "vende gasolina-se"...

Tentando responder a pergunta do final da postagem: essa escolha - falo apenas do meio escolar - é improvável, pelo menos hoje em dia. Há questões aí envolvidas que vão além da observação dos fatos linguísticos e se ligam a diretrizes e propostas de ensino, bem como a aspectos oriundos da estratificação social que se quer preservar.

De todo modo, acho que a discussão do tema deve ser empreendida em todos os momentos de uso da língua. Penso que só assim haverá meios de atacar a postura dogmática em torno do idioma.

Um abraço.

Halem Souza disse...

Ah, e antes que me esqueça, eu inclui o banner do Quem me ama no meu blog. Muito útil!

Marcello disse...

Hahahahaha, ‘vende gasolina-se’ é ótimo! Tem tb aquela do mestre de fandango que convida Luis da Câmara Cascudo, velho amigo, para um ensaio. Ao ouvir numa canção o verso ‘...nas ôndias do mar’, o anfitrião interrompe: “Para tudo! Respeitem o professor Cascudo aqui presente! Já disse mil vezes que não é ‘ôndias’!... A palavra certa é ôndegas!”

Halem, como ex-professor (de biologia, mas professor), imagino que ‘ensinar gramática’ talvez passe por um dilema – há as diretrizes, mas há também o fenômeno linguístico ‘per se’, muito mais significativo (esta, opinião minha).
Sem dúvida, é importante franquear a todos o acesso à escola e à norma-padrão. Mas, mais importante não seria permitir ao falante a capacidade de mudar de registro, de transitar por todo o espectro de variação da própria língua, de poder escolher aquela a ser usada num dado contexto ou situação, sem preconceito?
Conhecedor da norma culta, mas também 'dono' da própria língua, (e eu posso aqui estar idealizando...) esse indivíduo não poderia compreender as 'razões' dos que insistem na ideologia conservadora e criticá-las com mais propriedade? E poderia, tb, p.ex., passar no tal vestibular!... É, o tal vestibular...
Mas esse é um assunto para breve.

E, camarada Halem, mais uma vez obrigado – sua presença aqui é sempre enriquecedora. Grande abraço.

Mariê disse...

Texto perfeito. Não encontro outra palavra. Tanto na forma, como na argumentação, sem deixar de lado o humor que faz com que fique delicioso de ler.

Você é fera, meu Preto!

T.A.

Marcello disse...

Bgd, Preta. E vem aí, nesta mesma série, uma homenagem ao Gilmar Mendes...