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segunda-feira, 26 de abril de 2010

Esdrúxulas Proparoxítonas

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"Todas as palavras esdrúxulas
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas."
Fernando Pessoa,
O guardador de rebanhos e outros poemas.
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De volta à série sobre sociolinguística, falemos hoje sobre o ‘esdrúxulo’.
E para começar, da inquieta poesia de Augusto dos Anjos, observe-se os versos em destaque:


A idéia

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica…

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica.


Eis, portanto, um bom exemplo dos assim chamados versos esdrúxulos. ‘Esdrúxulo’, termo que na linguagem familiar significa ‘esquisito, estranho, fora do comum’, originalmente designa um grupo específico de palavras da língua portuguesa: as proparoxítonas - como ‘raquítica’ e ‘paralítica’ dos versos acima.

Sim, palavras proparoxítonas recebem o nome de esdrúxulas, e não é por acaso. As proparoxítonas não são propriamente comuns no português, tanto que a regra ortográfica determina que ‘todas as proparoxítonas devem ser acentuadas’. A tendência natural da língua portuguesa, o seu ritmo próprio, é paroxítono, de modo que se faz necessário marcar com o acento gráfico o que distoa do geral. O adjetivo ‘próspero’, por exemplo, se grafado sem o acento, conduziria à leitura de ‘prosro’, flexão do verbo ‘prosperar’.

Por causa dessa tendência paroxítona natural do idioma de Camões, é comum se falar no português não-padrão uma série de palavras proparoxítonas de modo abreviado, como nos exemplos: ‘árvore’ = arvre; ‘córrego’ = corgo; ‘fósforo’ = fosfro; ‘pássaro’ = pasro ou passo (como em ‘passo-preto’).

Todavia, e mais uma vez, é importante salientar que aquilo que costuma ser taxado de ‘errado’ no português não-padrão não é nada mais que o resultado de tendências da própria língua. Quanto às proparoxítonas, essa tendência fica evidente quando se compara termos atuais com seu original latino (clique e amplie):


E a lista poderia ser maior, pois são numerosos os exemplos desse fenômeno. Inclusive quanto aos nomes próprios, donde Cárolus originou Carlos; Stéphanu, Estevão; Brácara, Braga. Há também daqueles casos em que uma palavra proparoxítona latina originou duas na língua portuguesa - uma paroxítona, outra proparoxítona. Aqui, tem-se uma boa noção de como a partir de uma mesma origem a língua se bifurca: segue, de um lado, a tendência erudita; do outro, a tendência popular. Esse é o caso do latim coágulu, donde surgiu a paroxítona coalho e a proparoxítona coágulo. Portanto, o leite ‘coalha’ – termo comum usado entre o povo em geral – mas o sangue coagula – termo restrito a determinada parcela da população.

E há, ainda, outra importante constatação: o termo paroxítono, popular, abreviado com relação ao original, é ele o mais antigo; a formação do termo erudito geralmente é mais recente, o que indica um resgate artificial do termo erudito em contraponto a evolução natural que originou o termo popular. E assim também o é em ácido e azedo, em pútrido e podre, e em frígido e frio, entre muitos outros exemplos.

Afinal, quais seriam as razões por trás desse fenômeno?

A resposta, certamente, não é a pressuposta ‘preguiça’ atribuída ao falante do português não-padrão. Ao contrário, o que naturalmente acontece ao longo da evolução de uma língua é uma aceleração no ritmo da fala, ou seja, a língua se torna mais dinâminca, mais rápida. Assim, se numerosas palavras já se oficializaram como paroxítonas no português padrão, outras ainda não, fruto da repressão imposta pela educação formal e pela rigidez dos preceitos gramaticas. Refreamentos que, todavia, não impedem o seu livre fluir na boca do povo.
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(Artigo inspirado em BAGNO, Marcos. A língua de Eulália, Contexto, 2008)
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(Na próxima postagem sobre o tema: O estranho caso dos frangos suicidas)
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2 comentários:

Mariê disse...

Preto, 'pra variar' excelente texto. Adouro!

Marcello disse...

Trabalhando no próximo...
Aguarde