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sexta-feira, 23 de abril de 2010

A Assimilação Que Não Assimilamos... Ainda

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(Inspirado em Marcos Bagno; A língua de Eulália. Contexto, 2008).

Mesmo entre os ‘instruídos’, é comum a pronúncia apressada dos verbos no gerúndio, donde ‘andando’, ‘falando’ e ‘escrevendo’ acabam convertidos em andano, falano, escreveno. Não, não se trata de ‘erro’, tampouco de ‘ignorância’. Trata-se, mais uma vez, e como se verá, de um fato linguístico fruto da evolução natural de uma língua.

Ocorre que /n/ e /d/ pertencem a uma mesma família fonética – a das consoantes alveolares (em português são alveolares t, d, n, s, z, l e o ‘r’ fraco, como em fraco). Na pronúncia dessas consoantes, a ponta da língua (ápice) ou a sua porção dianteira (pré-dorso ou lâmina) entra em contato com os alvéolos dos dentes incisivos superiores, isto é, com a região onde há as cavidades de encaixe dos dentes nos maxilares.

Os fonemas /n/ e /d/ são, portanto, produzidos numa mesma zona de articulação. A pronúncia cuidadosa da palavra ‘nada’ ilustra o fenômeno: é possível perceber como a língua toca levemente a extremidade anterior do céu-da-boca (palato), precisamente onde se encaixam os incisivos superiores. E como são produzidas numa mesma zona de articulação, existe uma tendência nas línguas naturais de que dois sons diferentes, mas com algum ‘parentesco’, tornem-se iguais ou semelhantes. A essa tendência natural dá-se o nome de assimilação.

No caso da pronúncia dos gerúndios ocorreu, ao longo do tempo, uma assimilação do D pelo N. Logo, ‘falando’ converteu-se em falanno (com duplo n, um nasal e outro alveolar) e este se reduziu a falano, como hoje não raro se pronuncia. De modo semelhante, são pronunciadas com o mesmo desembaraço as palavras tamémmuncado, no lugar de ‘também’ e ‘um bocado’. Nestes casos ocorreu a assimilação do B pelo M, uma vez que ambas são consoantes bilabiais. A pronúncia cuidadosa de ‘momo’ e ‘bobo’ pode ilustrar o movimento dos lábios na articulação das bilabiais.

Esses assim chamados ‘erros do português falado’ não são fenômenos regionais, ou falares típicos de determinada classe social; são, ao contrário, fenômenos linguísticos universais. Há casos de assimilações semelhantes em outras línguas derivadas do latim. Por exemplos:

- no catalão, do latim mandare (mandar) fez-se manar – assimilação do D pelo N;

- no castelhano, o latim lumbu (lombo) converteu-se em lomo; e do latim lambere (lamber) nasceu lamer – assimilações do B pelo M.

Note-se que, nesses idiomas, o fenômeno não se limita à fala, mas alcança o registro oficial, uma vez que a força das assimilações resultou na sua incorporação à língua escrita. O mesmo poderia muito bem ter acontecido no Brasil, não fosse a nossa histórica reverência ao precioso português-padrão de raiz lusitana, em detrimento da aceitação da língua do povo, mais natural e, portanto, mais lógica. Afinal, a língua sempre foi - e muitos querem que continue sendo - um importante instrumento de dominação e de poder.

(Na próxima postagem: por que será que os versos terminados em palavras proparoxítonas são chamados de “esdrúxulos”?).
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2 comentários:

Mariê disse...

A escrita e a fala usadas como modo de extratificar a sociedade, modo de nos afirmarmos diante dos que chamamos "ignorantes". E assim caminha a humanidade...

Adorei a ilustração com a bandeira das nossas Minas Gerais: bão tamem.

Marcello disse...

A linguagem deve ser fonte de cultura, não sequela.
Um dia a gente chega lá (?).