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sexta-feira, 15 de abril de 2011

Reencontro

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Andava eu pela calçada. Observava a grama rala irrompida das trincas do pavimento, aspirava a atmosfera seca saturada de pó, sentia o sol a me queimar o cocoruto. Óbvio, era vinte e quatro de fevereiro, alto verão na metade sul do planeta, vinte para as duas da tarde no horário de Brasília – nesta época, nesta hora, nesta Brasília, se não chove, o sol lasca. Mesmo assim, andava eu pela calçada.

Padecia daquela ressaca que costumam chamar (e só por costume, porque até onde eu sei Homero nunca teve ressaca) de homérica. Vivia minha odisseia pós-etílica no trecho empoeirado entre o estacionamento de uma das quadras residenciais da Asa Norte e a sua entrequadra comercial – nesse tipo de endereço que só quem mora em Brasília entende.

Foram essas a data, a hora e o local que o infeliz escolheu pra se encontrar comigo. Curiosamente, o encontro seria na comercial da 115/116 Norte, precisamente no Johan Sebastian Bar, estabelecimento que, apesar do nome empolado, vinha sendo nos últimos tempos o boteco da minha melhor avaliação custo/benefício.

Aliás, isso merece um parêntese.

O 'Joãozinho' – apelido carinhoso pelo qual os clientes mais íntimos costumam se referir ao Bar – tem cerveja gelada, tem garçom eficiente e bem-humorado, tem preço razoável, bom e variado tira-gosto e banheiro a contento. São cinco, mais ou menos na ordem de importância, dos dez quesitos levados em conta pelos botequeiros mais exigentes; acessibilidade, ambiente, música, clientela e conforto seriam os outros.

Parêntese fechado, foi neste dia, neste horário e neste local que ele preferiu o encontro. Dia 24 de fevereiro, duas da tarde, no Joãozinho. E lá estava eu, depois de caminhar a maratona de quase cinquenta metros sob o sol escaldante deste verão que Niemeyer inventou. Lá estava eu naquela mesa anônima, o mais disfarçada possível dos olhos curiosos, no canto mais possível de ser canto do Joãozinho, dez para duas poeirentas horas da tarde daquela típica quarta feira brasiliense.

Aliás, era meu aniversário. Quarenta anos... Passados os trinta da razão, eu entrava na década perigosa...

Pedi um chope. Tomei de um gole, desceu quadrado. Pedi outro, depois mais outro – agora a garganta já amaciava. A parestesia do terceiro chope relaxou os músculos, mas eu continuava nervoso. E ansioso, e excitado. Aquele encontro seria importante demais para mim. Há tempos eu queria falar com ele, e falar francamente sobre um monte de coisas que se amontoaram desde a última vez que nos vimos.

Mas nada dele chegar...

Olhei o relógio pela enésima vez: ainda duas horas, o tempo não passava. Quase três chopes e várias espiadas no relógio em dez minutos. O tempo se arrastava... Começava a pensar que ele não viria mais, quando, mesmo em contraluz, reconheci aquele porte, aquele corte de cabelo, a forma daquele corpo que eu conhecia tão bem... Ele estava lá, parado junto à entrada do Joãozinho, a pesquisar por mim.

Ergui ligeiramente o torso e acenei, ele me viu e veio se aproximando. Aqueles breves segundos, ocupados pela densidade de um caminhar jovial e seguro, duraram muito mais que uma brevidade, como se o deslocamento da sua figura fizesse o tempo passar mais devagar, em câmara-lenta...

“Oi”, disse ele, muito seguro, com um sorriso discreto porém franco nos lábios finos e nos olhos pretos.

“Oi...”, claudiquei. “Senta aí”, implorei.

Bem posto na minha frente, ele olhava para mim com a segurança dos seus dezessete anos, com um ar ao mesmo tempo perquiridor e desafiante. Afinal, o que eu queria dele, depois de tanto tempo? Por que cargas d’água eu telefonara na noite anterior, num daqueles momentos de reflexão e introspecção ligeiramente etílicos que sempre resultam na mesma conclusão inarredável: “o passado já era, o futuro não é nada; contente-se, portanto, com o seu presente de merda”.

O que eu queria, na verdade, era ser resgatado do eu daquele agora, queria revisitar o passado, ser abduzido dessa verdade impertinente do presente, e somente esse reencontro haveria de me trazer alguma esperança...

Pois bem, ele anuíra ao encontro. E escolhera o dia, a hora e o local. Estava ali agora, senhor da situação, com todo o viço dos seus dezessete anos, com todo aquele brilho indelével no olhar que ainda não viu as caretas do mundo, com todo aquele ar satisfeito de quem pensa que a vida sorri, quando só arreganha os dentes. Ali estava ele, finalmente, diante de mim.

Mas eu, que tinha tanto o que falar, não sabia o que dizer. Emudeci de um mutismo tal que sequer conseguia expelir ar dos pulmões, quanto mais conciliar o raciocínio com a articulação das palavras. Vinte e três anos depois, estávamos nós dois frente a frente outra vez. Tantas perguntas, tantos afagos, queixas e histórias e rememórias, e eu ali, paralisado, mudo, hesitante, vacilante. Vinte e três anos depois, e eu não sabia o que dizer no momento do tão esperado e desejado encontro comigo... Sim, pois o rapaz sentado ali na minha frente... Aquele garoto cheio de vida na intensidade da sua juventude... era eu mesmo...

E eu ali paralisado... No preciso instante do reencontro comigo mesmo.
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