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quinta-feira, 31 de março de 2011

"A ditadura militar" (do blog ConTexto Livre)

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Reproduzo, com a permissão do autor, os primeiros parágrafos deste texto que considero um importante documento histórico; e que, como tal, deve ser exaustivamente divulgado.
No final, o link para o texto completo.

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A DITADURA MILITAR

“Este é tempo de divisas, tempo de gente cortada... É tempo de meio silêncio, de boca gelada e murmúrio, palavra indireta, aviso na esquina.”

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

"Dormia
A nossa Pátria mãe tão distraída Sem perceber que era subtraída Em tenebrosas transações.”

CHICO BUARQUE DE HOLLANDA

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Recife, 1964. Beira da praia, brisa da noite, mansões dos usineiros. As garrafas de champanha são abertas. Festa. Pessoas bonitas, perfume, olhares de fêmeas, dentes brancos de alegria. As risadas unem o gozo ao deboche. Vida longa para o novo governo! Que nunca mais se falem em greves nem nessa maldita terra para os camponeses! Morte aos inimigos da propriedade!

Um pouco longe dali, noite negra e silêncio. De repente, chegam os soldados. Vasculham os casebres. Procuram os inimigos da pátria. As pessoas simples têm medo. Precisam dormir cedo porque amanhã têm de ir para roça cortar cana. Mas o olho continua aberto. Só a boca é que permanece fechada.

No quartel, homens armados de fuzil automático arrastam o ancião. Espancado em praça pública. Maxilar quebrado por uma coronhada de rifle. Chutaram-lhe tanto os testículos, que arrebentou a bexiga. Vai urinar sangue por quase um mês, O velho ferido está algemado. Ao seu redor, caminhões do Exército, berros de oficiais, rádio, holofotes, metralhadoras.

Por que tanto aparato? Por que tantos homens, tantas armas, tanta força bruta? Por que o velhinho é tão perigoso?

Gregório Bezerra nasceu no sertão. Criancinha, viveu a fome e a prepotência dos latifundiários. Foi quase um escravo. Brinquedo de menino era enxada e foice, sonho de um dia comer carne-seca. Nunca viu escola. Só aprendeu a ler e escrever com 24 anos, quando servia o Exército - e nunca mais deixaria o orgulho de ter sido militar. Pouca instrução, mas o conhecimento da vida e a argúcia do homem do povo.

Um dia, entrou em contato com aquela gente estranha. Falavam coisas que ele nunca tinha ouvido mas que, extraordinariamente, parecia já saber. Alguns eram até doutores, mas o tratavam como igual. Muitos dos estranhos eram como Gregório, como Severino, como José, como tantos outros: mãos de calo, cara rasgada de sol, trabalho e sofrimento.

Ouviu, refletiu e juntou-se a eles.

Voltava ao canavial, onde o homem perde a perna, ou o juízo, pela picada de cobra, o golpe errado do facão, o jeito doido de o capataz falar. Mas agora, era ele que tinha o que dizer para contar para os seus irmãos de labuta. Nos campos, nos mocambos miseráveis, nas portas das usinas e das fábricas, Gregório seria a voz da consciência dos que ainda não tinham consciência, a posse dos que nada possuíam. Ele era o homem do povo que descobre sua força e, finalmente, se levanta. Em vez de lamentar suas misérias, ergue-se para combatê-las.

Sabia falar a língua dos humildes e fazer as perguntas decisivas; a quem pertence? A quem é dado? O que se deve transformar? Os homens mais poderosos de Pernambuco o temiam. Gregório Bezerra, velho quase analfabeto, ferido e enjaulado em 1964. Líder camponês, ex-deputado federal, inimigo do latifúndio. E se um dia todos aqueles homens e mulheres com as mãos grossas e rosto queimado se transformassem em milhões de Gregórios? Era preciso evitar a qualquer custo.

Por isso, Gregório Bezerra tinha sido preso. Naquele momento, os grandes senhores da terra comemoravam sua vitória. O reveillon de 1964 acontecia em 31 de março.

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Link para o texto completo: http://contextolivre.blogspot.com/2011/03/ditadura-militar.html

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Obrigado ao José Carlos, do blog ConTexto Livre, pela permissão, e à Mariê, do blog Pra eu me ouvir, pela sugestão de leitura.

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quarta-feira, 30 de março de 2011

Palavras, palavras...

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Recebi e-mail (valeu, Preta!) com esta bela crônica do – para mim até então desconhecido – jornalista e escritor Fábio Reynol (visite o blog).  Em O Vendedor de palavras, elas mesmas, as palavras, são mais que matéria-prima do texto, são também argumento da trama e personagens da própria metalinguagem. Elas, as palavras, essas entidades encontradiças se não abundantes, baratas se não gratuitas, mas inservíveis se desconhecidas. E mesmo quando conhecidas, sobre a maioria não se sabe a origem. Por exemplo, esta palavrinha pequenina, bem na moda, usada e abusada por aí: ‘spa’.

Segundo o Houaiss eletrônico, a etimologia do termo ‘spa’ recua ao início do século XVII. Tomou-se o termo, primeiro pelos ingleses, da localidade belga de Spa, famosa como estância hidromineral. Outras fontes indicam etimologia mais charmosa: ‘spa’ seria sigla da expressão latina salus per aquam, ou sanitas per aquam (saúde pela água). Mas, a despeito de mais charmosa, tal origem tende a ser fantasiosa – a expressão não é atestada nos autores latinos, e parece ser nada mais que um mero retroacrônimo... Ou seria retro-acrônimo? Retro acrônimo, quem sabe? Aliás, retro-o-quê?!...

Ah, essas palavras!...

(em breve, ‘negócio’)

Fontes: aqui e ali.
Imagem daqui.
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domingo, 27 de março de 2011

Sobre a alteridade

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cada um é um universo
o outro é o outro
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tentar se ver no outro?...
pelo outro?...
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um age de certa forma
o outro também
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o impulso
o motivo
as razões...
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as razões de cada um (sob a própria tortura)
são as próprias razões...
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e quem julgará as razões do outro?...
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razões orbitam um ‘eu’
cuja dor de ser só cada ‘eu’ compreende
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ademais
‘eu’ e o outro?...
ambos padecemos da mesma
e crônica
e específica
covardia...
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não se ousa ser
tampouco se ousa vir-a-ser
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vir-a-ser que nunca se completa
porque se contenta com o estando
porque se disfarça no representando
persona que segue a devorar
a pretensão do ser...
enquanto a casca se banqueteia
na mesma e confortável mesa...
da convenção
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o outro continua sendo o outro
com as próprias contingências
com as próprias escolhas
decisões...
para se adaptar ao mundo
ou para adaptar o mundo ao seu projeto
que ora tangencia
que ora cruza
que ora se confunde com o projeto
do outro...
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o conflito é inevitável
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não, não se trata de solipsismo
tampouco egoísmo
querer se entender em si não pressupõe ignorar o outro
que importa muito
(se na alteridade o EU se reconhece)
é decisão-renúncia-ação
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e o outro,
que por si só não acessa a própria essência
mas que tem a sua própria porção de ‘eu’
decidindo-renunciando-agindo
(que é diferente da desejar, sonhar, querer...)
reluta
tergiversa
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eis o embate
eis o sofrimento...
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ama-se o outro
(e amar aqui não é vazio,
amar aqui é atitude
é desejo...)
mas o que se quer de verdade
no agora-agora...
..0
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sábado, 19 de março de 2011

Uma hierarquia do medo

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o medo, produto e parceiro da existência; o medo, aliado e adversário...

o medo ilógico da morte (porque tudo o que vive, morrerá)

o medo (este sim, razoável) da extinção, de abandonar e ser abandonado pela vida

medo da perda, da dor da perda... pior, medo de perder e não saber que perdeu

medo do estado vegetativo, da impossibilidade de manifestar o desejo de morrer

medo da cegueira, da loucura, da mutilação, da paralisia, da doença degenerativa e incurável

medo da lâmina fria da arma branca atravessando a carne quente; ou do projétil da arma de fogo cauterizando vasos, rasgando músculos, esfarelando ossos, estraçalhando órgãos

medo da velhice, com ela a decrepitude, a senilidade, o desgoverno dos esfíncteres e da razão

medo de a pessoa amada desaparecer levada pelo arroubo impetuoso de uma paixão nova

medo da indiferença, da inadequação, da aversão

medo da solidão, no mundo e em nós

medo de ser banal, desimportante, olvidável

medo de que te descubram, medo de se revelar

medo do acaso, que pode se abater par hasard em qualquer exato segundo

medo da sorte adversa, irmã do acaso, com seu exército de provações, aflições, misérias

medo do caos, econômico, político ou social, conduzido à porta pela guerra, pelo desastre, pela peste

medo da pobreza, da miséria, da mendicância

medo do cativeiro, da impotência, da insegurança

o medo do desconhecido,
o medo do homem,
o medo do medo...

mas, todos medos estéreis... se no final, resta uma sepultura.

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gif daqui

quarta-feira, 16 de março de 2011

66

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"Entre a parede e a espada, me atiro contra a espada", Elis Regina (17/03/45-19/01/82)
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Para quem estranhou o título, 66 é a idade que completaria hoje Elis Regina, não fosse a fatalidade daquele 19 de janeiro de 1982 que arrebatou a guria de 36 anos das vicissitudes desta dimensão.

Difícil imaginá-la aos 66...

Penso na Eliscóptero (Rita Lee inventou esse apelido), penso naquele jeito espevitado, naquele riso moleque, no vigor das interpretações, na energia da voz, tudo isso hoje requintado pela experiência, iluminado pela maturidade... Mas, como disse, é difícil imaginar.

Como lenitivo, ficaram os registros da voz mezzo soprano, mistura melódica e vigorosa de doçura e pungência. Ficaram também os registros dos espetáculos inovadores em que a Pimentinha apresentava em um mesmo show - e às vezes em uma mesma canção - emoções tão díspares quanto a melancolia e a felicidade.

É, ficaram os registros, os magnéticos, os digitais, os memoriais... Mas, apenas registros, como sombras na parede da caverna.

De certo é que a voz de Elis, seja cantando, seja polemizando, seja protestando, ainda ecoa por aqui, e ecoará por ainda muito tempo. Ela encantou, sumiu, foi fazer um novo concerto...




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segunda-feira, 14 de março de 2011

O Síndico

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J28/09/42 - L15/03/98
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Amanhã faz treze anos que Sebastião Rodrigues Maia se foi.
Penúltimo entre dezenove irmãos.
Crítico, rebelde, de extremos bons e maus humores.
Dizedor de pérolas como estas e que se definia assim.
Pioneiro da soul music no Brasil que peitou rede globo e gravadoras.
Um dos maiores íncones da MPB.
Um artista genial...
E Síndico da porra toda.

Poucos viveram tão intensamente; nenhum jamais cantou como ele...

Aí embaixo, um "esquenta sovaco" e um "mela cueca", como ele dizia.





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