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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Sobre as dificuldades de não morrer (III)

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Omnia Vanitas, C. Allen Gilbert
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Ainda sobre as dificuldades de não morrer, e quanto a Borges, o que diz ele sobre a não-morte no seu conto O Imortal *?

Para muito além da viagem histórica e cultural proporcionada pelo escritor, poeta, tradutor, crítico e ensaísta argentino, este conto, tipicamente borgiano, é também uma obra de grande riqueza literária e vasta complexidade conceitual (como é, aliás, Jorge Luis Borges). Por exemplo, os intertextos e as multissignificações, elementos caros à Borges, acham-se aqui particularmente férteis. O conceito de ‘infinito’, outro traço típico nos escritos do autor (vide O Livro de Areia ** e O Aleph, conto-título da coletânea que inclui O Imortal), também aqui está presente de maneira marcante (uma nota: sobre a assertiva da presença do infinito na prosa borgiana, já li a respeito, mas careço das fontes; quanto à presença do mesmo conceito nas obras mencionadas, isso é claramente perceptível ao leitor).

Desse modo, com a sofisticação literária que lhe é característica e com o recurso dos elementos típicos da sua prosa, Borges desafia o ser mortal a enfrentar a ameaça da eterna existência. Em O Imortal, antes mesmo de confrontar seu protagonista com a promessa da imortalidade, Borges evidencia o temor do tribuno Marco Flamínio Rufo – o protagonista – ante tal arbítrio:

“Em Roma, conversei com filósofos que sentiram que aumentar a vida dos homens era prolongar sua agonia e multiplicar o número de suas mortes.” (p. 9)

Depois de longa jornada, e após vencer provações que por si só já o colocariam no panteão dos imortais (não pela imortalidade de fato, mas pela imortalização dos seus feitos – como Aquiles, que preferiu tal imortalidade a uma vida longa), o tribuno Marco Flamínio confronta-se com o preço a ser pago pela conquista vindoura. Uma de suas primeiras revelações é que a consciência exclusivamente humana da mortalidade converte o humano no único ser de fato mortal, porquanto
“(...) ser imortal é insignificante; exceto o homem, todas as criaturas o são, pois ignoram a morte; o divino, o terrível, o incompreensível, é se saber imortal.” (p. 19)

A convicção da imortalidade (divina, terrível, incompreensível), portanto, seria tão-só possível nos devaneios fantasiosos do artista criador, cujo produto é o desfile milenar de personagens da estirpe dos Imortais de Borges, ou do Dorian Gray de Oscar Wilde, ou do highlander das telas de cinema (ou da estirpe do Alá islâmico, do Javé judaico-cristão, de Tupi, de Baal, de Thor...).

Por esta mesma via, O Imortal questiona o significado do fervor religioso face à eternidade da alma, ao passo que sequer essa imortalidade 'virtual', como a professam as religiões, poderá de fato ser assumida como tal, se carente de significação e fraca no seu convencimento. Sobre isso, escreve Borges, com requintada ironia:

“Israelitas, cristãos e mulçumanos professam a imortalidade, mas a veneração que tributam ao primeiro século (a vida, como a conhecemos) prova que somente creem nele, uma vez que destinam todos os demais, em número infinito, a premiá-lo ou castigá-lo.” (p. 19)

E os efeitos da almejada imortalidade seguem a se revelar ao Imortal, agora abençoado com a maldição de ser eterno. Uma vez imortal, a vida prescindiria de significado (ou não o possuiria, simplesmente), pois cada ato pode ser precioso e rico em sentido, mas justamente pela possibilidade de ser o último; ou, noutras palavras, cada ato é precioso pela preciosidade do momento:

“A morte (ou sua alusão) torna preciosos e patéticos os homens (...); cada ato que executam pode ser o último (...). Entre os Imortais, por sua vez, cada ato (e cada pensamento) é o eco de outros que no passado o antecederam (...). (Entre os Imortais) nada é preciosamente precário.” (p. 21)

Perder-se-ia, pois, com a imortalidade, a preciosa significação da existência (a assumir a existência assim preciosa); e se perderá muito mais. Como acabará por testemunhar o tribuno Marco Famínio, perder-se-á a própria humanidade. O povo imortal de Borges é descrito como figuras bestiais “que devoram serpentes e carecem do comércio da palavra”; ou, ainda, como “homens de pele cinzenta, de barba desleixada, nus” que dormem em nichos escavados nas rochas e habitam ruínas, sugerindo mais figuras animalescas que humanas. E entre eles, entre os imortais, a grande surpresa de encontrar Homero, o lendário poeta grego – uma lenda imortal, ou um homem imortalizado pela lenda?... (a propósito, o supreendente encontro com Homero entre os imortais suscitará novas surpresas até o final do relato...).

Trata-se, enfim, de um tema árduo, pois falar da morte expõe a brevidade da vida, tanto quanto pressupõe o confronto com aquilo que transcenderá a vida – para uns, o Mistério; para outros, o Nada... E por árduo que seja o tema, o realismo fantástico de Borges o examina sob a 'fantasia da realidade' (como, quanto ao mais, qualquer narrativa de realismo fantástica), o que o torna mais palatável: é menos custoso encarar a realidade dura quando sob o véu do irreal.

Ainda a despeito da aridez do tema, sobrevive o ensinamento proverbial, tanto clássico quanto borgiano, da possibilidade humana de se converter (ainda que de maneira provisória) num ente imortal. Escusado o inevitável oximoro, a esta imortalidade se poderia dar o nome de ‘momento’ (eterno em si), ou de ‘feitos’– sejam eles os feitos heroicos que imortalizaram Aquiles ou os feitos literários que imortalizam o próprio Borges; visto que, embora fugaz e olvidável, o autor imortaliza-se na sua própria obra (sobre este particular, leia mais aqui).

É assim que, por meio da arte, Jorge Luis Borges confronta esta temática tão incômoda quanto pertinaz: a morte. Em O Imortal ele emprega os elementos típicos da sua linguagem – a figura do infinito, as imagens de ecos e labirintos, de espelhos dentro de espelhos – tudo perpassado pela multissignificação e sob uma constante intertextualidade: os significados em perspectiva infinita, um texto a se remeter a outro texto, e a outro, e a outro... oxalá fosse assim com as mortes... Todavia, sabe-se que não o são, ao que sobra se deixar conduzir pela arte na contenda contra a angústia da brevidade. E buscar, quem sabe, uma “re-representação” da realidade e da própria vida. Este é o recado de Borges... Muito embora ela conclua assim O Imortal:

“Palavras, palavras deslocadas e mutiladas, palavras de outros, foi a pobre esmola que lhe deixaram as horas e os séculos.” (p. 25)

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* BORGES, Jorge Luis. O Aleph. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. [Tradução de Davi Arrigucci Jr..]

** ______. O Livro de Areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. [Tradução de Davi Arrigucci Jr..]

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2 comentários:

Halem Souza disse...

Marcello, importante você ter lembrado da ideia (cara a Borges) da infinitude. E você tem razão; às vezes mais, às vezes menos explícita, essa ideia está em praticamente todos os seus escritos.

Felizmente, em minha opinião, você mencionou o que acho fundamental nesses textos citados:a preciosidade (ao lado do patético) que há na precariedade inerente à vida que fatalmente terminará. Esse "gosto" não terão nunca os Imortais.

Para mim,a melhor postagem da série.

Um abraço.

Marcello disse...

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Preciosa e patética. Simples assim.
O que complica é essa consciência da finitude encarcerada num organismo geneticamente programado para sobreviver.
Daí, haja criatividade para inventar outros mundos, outras vidas...

Grande abraço, Halem, e obrigado.
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