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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Sobre as dificuldades de não morrer

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"O pior não é morrer. É não poder espantar as moscas."
Millôr Fernandes

"Não é que eu tenha medo de morrer. É que eu não quero estar lá quando isso acontecer."
Woody Allen 



Duas leituras recentes e um antigo incômodo: As intermitências da morte, de José Saramago, e o conto O imortal, de Jorge Luis Borges, são as leituras; o antigo incômodo é o pensar na morte. E se digo antigo incômodo é porque já não o é mais – um incômodo. O que não significa, todavia, que eu não pense mais no ‘assunto’; significa, tão somente, que o ‘assunto’ já não me incomoda... tanto.

Sim, pensar na morte é atributo de quem vive (e tem consciência disso... e tem mais de vinte anos); uns pensam menos, outros pensam mais, mas não há quem não pense; como não há quem não a tema – a morte, ela mesma (inclusive aqueles iludidos pelas fábulas da eternidade - isso eu afirmo, a despeito das frouxas e eventuais negativas).

Todavia, analisado por um viés unicamente razoável, o temor da morte é, a rigor, um despropósito. Sabemos que morreremos; estar vivo é condição única e bastante para morrer um dia; o vivo possui essa inclinação natural para morrer. Donde, portanto, tamanho desconforto? Por que tanta dificuldade em lidar com o destino irrevogável?, salvo melhor juízo...

Naturalmente, a primeira resposta é a consciência da morte, atributo exclusivamente nosso. O grito primal de tudo o que vive é a sobrevivência, genética e instintiva. E tudo o que vive, ressalvados nós mesmos, não sabe que morrerá. Nós, que sabemos, e que também gritamos pela sobrevivência, havemos de nos embater, hoje e sempre, com tamanho paradoxo.

Mas, o que mais incomodaria, além da consciência da finitude encarcerada num organismo geneticamente programado para sobreviver?

Talvez a brevidade da vida que, quem sabe, se fosse o dobro ou o triplo daquela que acomete a maioria, seria então suficiente (como fins de semana de quatro dias, ou férias de três meses...).

Ou talvez a noção da perda, se o que de fato incomoda não é a morte ela mesma (pois “onde estou ela não está, onde ela está eu não estou”, parafraseando Lucrécio), mas a perspectiva da ausência – aquela que sentimos dos que se vão e aquela que a existência sentirá de nós quando chegar a nossa vez. Afinal, nós somos muito importantes para a existência...

E, ainda, talvez pela perspectiva de ser convertido de um ente de tamanha importância (para a existência) num mero vestígio; vestígio que, naturalmente, vai se apagar, pouco a pouco, até o mais completo esquecimento...

Pois é, mas e as tais leituras? Como Saramago e Borges contemplam o tema ‘morte’, tão repetido, mas nunca exaurido, sempre instigante?

O traço comum entre as duas obras é o argumento. Ambas contemplam o mesmo tema, a ‘morte’, mas de um modo invulgar: tratam não do evento per si, mas da incapacidade humana de lidar com uma quimera: o antigo sonho, desejado e temido, da imortalidade (cuidado com o que você deseja...). E imortalidade aqui, diga-se, não é aquela pressuposta e fantasiosa eternidade da alma, mas a imortalidade do corpo, a infinidade da vida esta mesma, como a vivemos. Essa imortalidade seria, portanto, uma benção ou uma maldição? – eis o questionamento... E eis o assunto para a próxima postagem.
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(imagem)

2 comentários:

Halem Souza disse...

Marcello, penso sempre na morte; diariamente até, hehehe...

Mas há um ponto específico na sua postagem que gostaria de discutir. Quando questiona sobre o que nos leva a nos sentirmos incomodados com algo que é simplesmente inevitável, você escreve:

"[...]não é a morte ela mesma (pois “onde estou ela não está, onde ela está eu não estou”, parafraseando Lucrécio), mas a perspectiva da ausência – aquela que sentimos dos que se vão e aquela que a existência sentirá de nós quando chegar a nossa vez. Afinal, nós somos muito importantes para a existência...[...]".

Concordo inteiramente! Até me lembra aqueles versos do Fernando Pessoa/Álvaro de Campos em Se te queres matar, por que não te queres matar?, quando ele diz que o próprio universo e os outros são "satélites da sua [da nossa, eu diria] subjetividade objetiva".

Um abraço.

Marcello disse...

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Halem, é precisamente este o parágrafo que sintetiza o que eu procurei (quis, tentei, intentei) dizer.
Seus comentários, embora raros, são sempre pertinetes. E caros.

E Halem, ainda, quanto ao Álvaro de Campos/Fernando Pessoa, o que dizer?... Senão o que eu (e você), para além da poesia, diríamos:

"Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem"

Grande abraço...
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