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sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Meu velho pai...

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Ao Zezé, uma homenagem singela e justa

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Tu foste, meu pai, meu exemplo
De todos, meu maior herói,
Teu manso semblante contemplo
E tanta saudade me dói

Eu trago lembranças doídas
De quando saías no inverno
Com roupas singelas, puídas
(pra mim, tu vestias um terno)

Chapéu de palha amassado
A te coroar a cabeça,
O alforje de couro do lado
- como é possível que eu esqueça?

Montando um bom cavalo baio
Saindo antes do amanhecer,
Em lágrimas, hoje eu me esvaio
No instante em que penso em você

E todas as horas do dia
Passavas na lida do gado,
Pois era o que tu querias:
ser trabalhador respeitado

Ficavas até a noitinha
Zelando pela criação,
E quando voltavas não tinha
P’ra nós, tanta disposição

Talvez eu não fosse capaz
De bem entender tuas ações,
Mas hoje, olhando p’ra trás,
Compreendo as tuas razões

Querias que nós, os teu filhos,
Seguros e com decisão,
Seguíssemos os nossos trilhos
Com garra, determinação

...

Deitado, afinal, no teu leito
Com os olhos perdidos no teto,
Mãos lassas pousadas no peito
Talvez só querendo um afeto

Daquelas mãos calejadas
Recordo-me, com carinho,
De quando, desajeitadas,
De leve, tocavam as minhas

E era, meu pai, meu desejo,
Mesmo a perceber teu cansaço,
Tocar a tua face com um beijo
De ti, receber um abraço

Mas mesmo naqueles instantes
Contigo eu podia contar -
tão perto, e também tão distante -
este o teu jeito de amar...

O tempo passou e cresci,
Tornei-me um homem formado,
Sabendo que devo a ti
Se hoje sou pai respeitado

É desse tempo, meu velho,
A forja do homem que sou
Em ti hoje ainda me espelho:
sou como meu pai me ensinou

Legaste uma herança valiosa,
Tão mais do que meros trocados,
Deixaste uma história preciosa,
Da vida de um homem honrado

Suporto, infeliz, tua ausência
Mas sei que sou privilegiado
Pois tive a grande experiência
De um dia viver ao teu lado

Apenas lamento, dolente
O abraço que nunca te dei
E não poder ver novamente
Teu rosto, que nunca beijei...

(Brasília, 2004)

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E uma modinha de viola, do jeito que ele gostava:



José Ávila de Souza
*  03/09/45
+ 06/02/04
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2 comentários:

Mariê disse...

Ah, Nego, que lindo!

:)

Marcello disse...

Saudade do Zezé, Nega. Ele faz muita falta...