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sábado, 26 de dezembro de 2009

Miniconto Poeano Versificado

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Sonhava um sonho ruim... aflita, angustiada...

Um sonho dentro do sonho, mas no sonho não tinha nada –

Nada!, e além do nada, a mais completa escuridão.

De repente, se flagra acordada... e descobre: está num caixão!

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Puxa-saquismo genético?



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Manhã de segunda, acabo de chegar ao trabalho. Travo conversa com esse sujeito no hall do elevador – platitudes, banalidades sobre o fim-de-semana. Ali estamos em pleno exercício retórico, quando passa doutor Fulano-de-tal, figura distinta e influente, a transpirar autoridade de dentro do terno grave. Meu interlocutor – cujo nome tenho por bem omitir – até então solícito e atento às nossas trivialidades, à primeira vista da nobreza debanda em seu encalço sob efusivos brados de ‘bom dia, doutor Fulano-de-tal!’... Fico ali, com cara de ué, resto da frase muda na boca aberta – pois assim mesmo ele arremete na captura do saco do outro: no meio de uma frase minha. Bem-humorado – apesar da segunda-feira –, balanço a cabeça, dou de ombros e pego meu beco, mas não sem refletir sobre o episódio.

Talvez em defesa psicológica contra o descaso do colega, colho-me em conjeturas outras sobre o mesmo tema, ao que me ocorrem as seguintes questões: afinal, seria o puxa-saquismo um fenômeno genético, inato? E ainda: o termo “puxa-saco”, donde vem? – sim, pois certamente não significa, ipsis litteris, distender a bolsa escrotal de quem quer que seja, até mesmo porque há figuras do sexo feminino – naturalmente desprovidas de tal excrescência – objetos deste proceder.

Quanto à primeira questão, sou inclinado a reconhecer uma possível (quiçá provável) influência genética no comportamento bajulatório, o que poderia ser inclusive deveras vantajoso em termos evolutivos: o portador do traço gênico se poria sob mercês do incensado, figura a priori detentora de poder e ascendência, se de outra forma não seria alvo da bajulação. Todavia, a prática do puxa-saquismo também implica em desvantagens importantes, e aqui me transporto para os tempos da escola com o objetivo de ilustrar o presente corolário.

O aluno puxa-saco, aquele da primeira fila, diligente carregador de pastas e limpador de apagadores, o informante-dedo-duro-filho-da-puta, ah, como sofria esse infeliz! Até possuía algum privilégio entre os professores, mas, com os iguais... Cascudos, ponta-pés, segregação... Não tinha amigos, o desgraçado. E coitada da mãezinha dele!... Mas, a despeito da humilhação, gostava de ser puxa-saco. Olhinhos brilhavam ante um elogio qualquer, por mirrado que fosse – era a compensação, o reconhecimento pelo abnegado e inglório propósito de zelar pelo bem-estar do mestre.

Se por um lado alguma desvantagem do puxa-saquismo possa prejudicar a hipótese genético-evolutiva, por outro, reforça. Trata-se de impulso irresistível, como de resto o é qualquer contribuição gênica. A compulsão é tamanha, que só assim se explicaria a perseverança do puxa-saco, pois nenhuma vantagem que pudesse ter compensaria tal sofrimento. Além do que, sabidamente, não há ex-puxa-sacos – é pecha a ser arrastada para o resto da vida. O mesmo ocorre com os traços genéticos.

Quanto à questão semântica, bons dicionários não esclarecem a etimologia da palavra. Googlei, portanto. Eis o que encontrei. Segundo ‘A Casa da Mãe Joana’, livro de Reinaldo Pimenta que trata da origem de palavras e expressões, o termo vem da caserna: “puxa-sacos eram as ordenanças que, de modo submisso, carregavam os sacos de roupas dos oficiais em viagem”. Claro que, neste caso, a imposição não era genética, mas hierárquica - embora esteja eu fortemente inclinado a supor ter havido voluntários a se apressar solícitos e prestimosos ao cumprimento de tão nobre missão.

Se o puxa-saquismo é de fato genético, não se sabe, e sua faceta caricata pode até ser, sim, divertida. Mas, a despeito de descomprometida, não excede o propósito desta crônica lembrar o quão nocivas podem ser a hipocrisia dos aduladores e a subserviência dos lacaios do poder. Aí não há a menor graça. E sobre essa outra faceta, desprezível e abjeta, há urgência em aprender. E contra ela pelejar.
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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Digressões sobre "O Nariz"

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Detalhe de Cristo carregando a cruz, H. Bosch, 1490
(Museu de Belas Artes, Ghent, Bélgica)
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O gênio de Gogol é precisamente a ondulação - dois e dois são cinco , e até sua raiz quadrada.
(V. Nabokov)
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Paul Valéry ensina: “quem pretende falar ao público sobre obras alheias deve fazer todo o esforço para entendê-las ou pelo menos determinar as condições e os constrangimentos que o autor se impôs e que se lhes impuseram”. Quanto ao conto O Nariz, de Nicolai Gogol, muito já foi dito, escrito e especulado. Permito-me, contudo (depois de breve resenha, livre de spoilers).

Local, São Petersburgo, capital setentrional do vasto Império Russo. Época, o conturbado e desigual século XIX, de sociedade contaminada pela burocracia (na obra de Gogol, os ‘funcionários públicos’ – ou a paródia deles – encarnam os papéis mais burlescos e cruéis, capazes que são das maiores mazelas no encalço da ascensão social).

Certa manhã, ao cortar o pão, o barbeiro Ivan Yakovlévitch encontra um nariz enterrado na massa. Aturdido, acusado pela esposa de ter decepado as fuças de algum cliente, o pobre reconhece o órgão: pertence (ou pertencera) à M. Kovaliov, assessor do colegiado, barbeado por ele recentemente.

Entrementes, Kovaliov acorda na própria casa e dá por falta do nariz – na cara, só a superfície achatada onde antes repousava o barroco órgão (só não tão rococó quanto à orelha...). Desesperado, nosso anorrinco personagem inicia a série de suas desventuras. Procura as autoridades – que o ignoram e tomam por louco – e sai a vagar, desnarigado, pelas ruas. Encontra, finalmente, o Nariz (não por acaso agora referido com inicial maiúscula) sob forma humana. Ele, o Nariz, desembarca de uma carruagem e entra naquela casa; sai, minutos depois, sob uniforme de conselheiro de Estado, com o rosto (rosto?) oculto pelo colarinho alto e chapéu de dois bicos. Segue-se um improvável diálogo entre Nariz e desnarigado, e a história avança... O final (ou finais, já que a obra teve três versões) não chega a ser surpreendente, mas é emblemático.

Quanto às análises desse conto de situações tão absurdas e burlescas, já o relacionaram com certo fascínio nasal típico daquele século XIX, quando também Carlo Collodi concebera seu célebre Pinóquio; já o referiram influenciado pela atmosfera espiritual pré-romântica do mesmo século, quando o ‘diabo’ era freqüentemente mencionado (pouco tempo antes, Goethe escrevera o Fausto); e já o reputaram (assim como Tchitchikov, de Almas Mortas, ou Khlestakov, de O Inspetor Geral) a figura de ‘anticristo’, em inusitada interpretação ‘apocalíptica’ da obra de Gogol e de Dostoievski (em Gogol e Dostoievski ou a Descida ao Inferno, de um certo Paul Evdokimov). Teria sido, também, O Nariz, a inspiração (nariz, inspiração...) de Dostoievski para escrever seu único conto fantástico: O Crocodilo, “pura brincadeira literária, unicamente para rir” (segundo o próprio, em Diário de um Escritor). E por último, mas não menos importante, uma ‘leitura’ freudiana: não são raros os que vêem no nariz rebelde uma espécie de superego do personagem, que desprovido da censura às suas pulsões fundamentais, se vê a mercê de si próprio, despido da moral que o faz aceitável naquela sociedade hipócrita e burocrática. Daí seu desespero, a ânsia incontida em recuperar a própria interdição de si...

Na conclusão da primeira versão, de 1935 (o livro teve três finais distintos em três diferentes edições, como mencionei), Gogol limita-se a acordar Kovaliov de um sonho – tudo não passara de um sonho, e tudo voltaria à perfeita normalidade... De acordo com o próprio autor, Aleksandr Pushkin lhe teria sugerido alterar substancialmente a primeira versão, ao que de pronto concordou – talvez Gogol não tenha gostado da solução ‘fácil’ para o “tamanho despropósito que acabara de produzir” (como ele mesmo se refere à obra). No fecho da última versão de O Nariz, Gogol pondera sobre o que acabara de escrever: “Não, isso não se sustenta de pé, eu não compreendo de modo algum... Mas, o que há de mais estranho, de mais extraordinário, é que um autor possa escolher semelhante assunto... Eu confesso que isso é, deste modo, absolutamente inconcebível, é como se... não, não, desisto de compreender” (L&PM, 2007, p. 52).

Enfim, minhas próprias digressões:

Não seria interessante considerar este órgão, dos mais prosaicos que o ser humano carrega em si, como um símbolo de clarividência, de intuição e de sabedoria? Seria obra do acaso a existência de expressões como 'meter o nariz', 'ver além do nariz', 'saber onde está o próprio nariz', 'de nariz empinado', 'dono do próprio nariz', entre outras tão comuns e despercebidamente filosóficas? Porventura tais expressões não se referem precisamente à clarividência, à intuição e à sabedoria? Gogol teria isso em mente quando concebeu o seu Nariz? Seria casual o uso de uma gama de recursos de metalinguagem (e com maestria), a criar esse jogo de contraposições dialéticas entre personagens, autor e leitores, deixando em um estado de suspensão o que está dentro e o que está fora do texto? Ou quem escreve, quem fala e quem lê? Eis, a título de exemplo, uma propositada digressão do tempo narrativo, quando o autor busca recuperar o prumo perdido em função dos absurdos do relato até então: “(...) novamente a aventura se perde numa névoa tão espessa que ninguém jamais pode desvendá-la”.

Análises e digressões à parte, O Nariz é conto delicioso, tipicamente gogoliano, mas escrito sobre o trivial, e que se deixa ao sabor do trivial. E que, na medida de uma grande metáfora, apresenta todos os contornos de crítica burlesca à sociedade de São Petersburgo e da Rússia czarista. Além de ser, naturalmente, interessante e desafiadora caricatura literária, avaliada pelos aspectos peculiares da construção dos personagens, da descrição dos ambientes e do caráter circunstancial sobre o qual a trama se desenvolve. E que eu recomendo, sem reservas... Apesar do ‘despropósito’.

De resto, ouçamos o que diz Antônio Aleixo:

“Uma mosca sem importância
poisa com a mesma alegria,
na careca de um doutor,
como em qualquer porcaria...”
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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Penso...

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Rodin, 'Pensador' (detalhe)

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Ando a meditar no embaraço do que penso
(meada frouxa enovelada em dedos tensos)
Retesa e firme, obstinada intermitência,
Que se consiste na minha própria consciência.
Penso no que é denso..., tudo mais é inconsistência
Do que não penso, mas decerto, ainda assim,
Diz que eu preciso é me afastar de mim,
Pois se aflito ainda estou pela aflição

De este aqui ser mesmo eu, e outro não...
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Breve ensaio sobre a loucura

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'Dulle Griet', Pieter Bruegel, o Velho

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Esse louco, louco ente

Esse ‘Eu’ que em mim habita

Meu cativo, e assim aflito

A me assoprar, inconsequente,

Um leve sopro de loucura

À razão que me tortura...

Ah!, de loucura já se fez

A minha insana sensatez.
(Marcello Cabral)
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Sob a máscara da lucidez, está a da loucura – exatamente a nossa cara.

Se um delira, chamam loucura; se a loucura é geral, vira sensatez – que pode significar passar metade da vida preocupado com o que nunca vai acontecer...

Então, louco não seria quem chama de louco aquele que não vive a vida dos outros?

Louco não é quem chama de louco aquele que não troca seu tempo por alguns dinheiros?

Eu, quando menino (menino cruel, como qualquer menino) ria da cara dos loucos. Hoje, se quero rir, me olho no espelho... E o faço satisfeito, se mais vale um louco apaixonado que um sensato indiferente.

Acontece que se a loucura é breve, o arrependimento pode ser longo – melhor então se manter louco... E ainda ajuda no ofício de escritor! É que a loucura aparece vezenquando e sussurra um belo poema... (embora a razão possa vir logo em seguida e escrever uma banalidade).

Dizem por aí que se um louco tem consciência da sua loucura, louco ele não é. E quem (pensa que) tem consciência da própria sanidade? O que ele é, senão louco?... O sensato pensa que sabe, o louco sabe que pensa; e ‘consciência’, para o louco (para nós, loucos), é apenas aquilo que se move no universo interior.

De resto, não há com o que se preocupar, pois a loucura melhora com a idade... Quanto mais velho, mais louco.
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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

"O diabo no meio da rua..."

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“O Diabo no Meio da Rua” é meu segundo blog.
O primeiro durou um ano – perdeu força, teve vida curta. Este, pretendo menos breve.

“O diabo no meio da rua...”(1) é o mal fincado na natureza, misturado em tudo, outra cara do bem.
Se “o sertão é do tamanho do mundo”, o diabo é tudo e cada um – deuses também.
Bons e maus, faces da mesma moeda, conflito em equilíbrio - “humanos, demasiado humanos”(2) , enfim.

Na abertura do meu primeiro blog estava a belíssima crônica ‘A Outra Noite’, do Rubem Braga.
Este, abro com um poema sobre o poeta, o "artífice de si mesmo, barro do próprio sonho"(3). E este post, de boas-vindas, encerro com Walt Whitman:


"Eu me contradigo?
Pois bem, eu me contradigo,
Sou imenso, contenho multidões"

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(1) Subtítulo de Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa
(2) F. Nietzsche
(3) Paráfrase de 'Memória da Esperança', Thiago de Mello
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O Poeta

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O mundo não afeta o poeta enquanto tal
O que o perturba é o desespero de existir
(apenas este é o seu mal...)
E lacerado pelo próprio grito – violento e aflito –
Desdiz o dizível pelo recurso da palavra imprópria,
Destrói e reconstrói pela estética do outro, incógnito
A si mesmo, em momentos, desconhece...
Finge e padece, passado e presente esquece...
Mas lembra o futuro – seu porto seguro
Busca na embriaguez a redenção
Questiona e coloca-se em questão
Louco, volta-se ao mundo para um ar
Mas logo deserta, e deserto prossegue a amar...
(ama a própria aflição, odeia o ódio com paixão)
Crê na fé, abomina a crença,
Pensa...
É, sobretudo pensa.
Espreita sobre os ombros da intuição
Percebe a vida
E enxerga-nos a alma resumida
Submete o hábito à fervura e destila a poesia pura
É mentira e é verdade,
É esquecimento e saudade
É fraco e é forte,
Morre a vida e vive a morte
Não é, senão, ninguém...
Mas é também multidão.

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